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M06 – Vida de Fiscal
18/04/08 · Alexandre Meirelles

VIDA  DE  FISCAL

Texto escrito originalmente em 14/03/2007 e publicado no Ponto dos Concursos

(Esta versão sofreu pequenas alterações)

Muita gente me escreve perguntando como é a vida de um fiscal de ISS, ICMS ou da Receita Federal. Eu levaria muitas páginas para dissertar sobre isso, mas vou tentar resumir bem aqui.

Fui fiscal de ISS em BH por 11 anos e sou fiscal de ICMS-SP há menos de um ano, além de ter cursado o Curso de Formação do AFRF, o que me deu uma visão ainda maior sobre este Fisco. E quase todos os meus melhores amigos são fiscais de tudo que é canto deste país há vários anos, então acho que tenho um bom conhecimento para falar do assunto.

Primeiro vou fazer uma ressalva: vou escrever aqui em linhas gerais, mas todos têm que saber que os tipos de serviços variam de um lugar para outro. Exemplo: ser fiscal de ISS em SP têm muitas diferenças de ser fiscal em BH, por exemplo. Mas em linhas gerais é isso aí.

Lembrando ainda que em cada cargo você pode fazer vários outros tipos de tarefas, mas acho que o principal está descrito abaixo.


1) Fiscais Tributários de Prefeituras

Você basicamente vai mexer com ISS ou IPTU. O resto esquece, são poucos que não trabalharão com isso.

O pessoal que mexe com IPTU trabalha mais analisando pedidos de recálculos de áreas, de tipos de construção etc. Em suma, você vai aos imóveis verificar o que os contribuintes estão reclamando. Logicamente porque a Prefeitura lançou um valor de imóvel maior do que o contribuinte acha que possui. E tem um pessoal que trabalha com a planta de valores, que é o estudo que as prefeituras fazem sobre preços de imóveis nos bairros, preço de material de construção etc. Afinal, todos sabem que a base de cálculo do IPTU é o valor venal do imóvel, incluindo a parte construída.

Mas a maioria mexe com ISS. E daí tem o pessoal que trabalha internamente mexendo com os processos, analisando o que deverá ser mais fiscalizado em determinada época, verificando os trabalhos que os externos fizeram etc., fora as chefias, claro. E o fiscal que imaginamos quando estamos estudando para o concurso, que é o fiscal externo, que é aquele que vai às empresas prestadoras de serviços analisar o seu movimento, verificar livros e notas fiscais de serviços, autuar (multar), constatar e/ou apurar fraudes e crimes tributários etc.

Os externos quase sempre não possuem muito rigor com horários, pois trabalham muito em casa também, analisando os documentos. Periodicamente levam os serviços prontos, tiram as dúvidas e pegam mais serviços em dias pré-marcados. Se quiser trabalhar aos finais de semana e às madrugadas e ficar com alguns dias úteis mais livres, problema seu. O que interessa é o serviço pronto e bem feito no dia da entrega. Não se estressam muito com horários, mas geralmente participam de mais confusões e situações embaraçosas. É mais desgastante. Muita gente gosta de fofocar dizendo que vagabundeiam muito, porque os vêem dando aulas, indo ao cinema de dia etc., mas muitas vezes trabalham até mais do que os internos, se cronometrarem todo o tempo real gasto trabalhando. Sofrem maior pressão por parte dos chefes também. Fui externo por 11 anos em BH, e agora sou interno. Mesmo com toda a pressão, prefiro ser externo, o que ainda vou conseguir daqui a alguns anos, mas isso vai do perfil de cada um. E sem nenhum sentido machista nisso, geralmente as mulheres gostam mais dos trabalhos internos. A maioria fica um tempo na rua e pede para voltar para o serviço interno. Realmente é difícil para muitas mulheres trabalharem na rua, sobretudo as mais novas e atraentes, visitando empresas com contribuintes enfurecidos e/ou engraçadinhos. Nas prefeituras isso se agrava ainda mais, porque as empresas prestadoras de serviços quase sempre são bem menores que as fiscalizadas pelos Estados, então é mesmo dureza para as mulheres fiscalizarem as oficinas mecânicas da vida. Nos Estados a tendência é que você fiscalize mais empresas grandes, ao contrário das prefeituras. A exceção seria um pouco a Prefeitura de SP, porque lá têm centenas de empresas gigantes contribuintes do ISS.

Lembrando que em todas as esferas há o pessoal responsável pelos julgamentos, geralmente os formados em Direito ou os que gostam dessa área de julgamento de processos. São os colegas que compõem os Tribunais Administrativos. Como não gosto de nada disso, sempre corri dessa área como o diabo da cruz.

Isso tudo que escrevi sobre internos x externos e a área de julgamento vale para as demais esferas também.


2) Fiscais das Fazendas Estaduais (Fiscais de ICMS)

Quando você é novato, vai trabalhar direto na cidade que escolheu em sua posse, dependendo do número de vagas, igual eu falei no artigo anterior. E cada cidade é uma rotina diferente das demais, pois muda muito de um local para o outro. Há as que são mais rigorosas com o trabalho e lhe cobram muito e há aquelas mais lights. Há as que não têm vagas para internos, só para externos, e há as que são o contrário. E mesmo dentro de cada delegacia você tem os locais melhores para se trabalhar e os piores. De uma parede para a outra muda muita coisa. Em suma, pode acontecer de tudo com você.

Eu recomendo que durante o Curso de Formação (CF) você seja o mais interessado possível em ouvir sobre as cidades, tanto das cidades em si como do clima nas delegacias. Seja curioso e bisbilhoteiro mesmo, inclusive indo às diferentes delegacias atrás de mais informações. Apresente-se e converse com os futuros colegas, você sempre vai ser bem recebido, eu garanto. E durante o CF vá ouvindo vários boatos sobre como é cada cidade e com isso já dá para ir formando uma idéia melhor do que escolher. Algumas dessas notícias não se realizam depois. Como disse, são boatos, mas uma boa noção das coisas você já vai ter, e sua chance de fazer bobagem na escolha da vaga diminui muito. Uma escolha errada pode virar seu inferno por vários anos. Muito novato fica louco com sua escolha e começa a estudar para outros concursos, o que poderia ser evitado se tivesse escolhido melhor no dia da escolha de vagas. Ainda bem que dei certo nas minhas opções até hoje, mas foi porque corri atrás de informações aos montes.

A idéia do trabalho é mais ou menos a mesma coisa das prefeituras. Você basicamente vai ser dividido entre internos e externos. Os internos podem fazer de tudo, dependendo em que seção você cair. Até mexer com licitações, análises de processos, atendimento aos contribuintes, informática etc. Hoje o fiscal pode fazer de tudo. De cara, quando chega como novato, você pode escolher muito pouco. Mas com o tempo você vai conseguindo fazer o que é mais seu perfil, mudar de cidade etc. Se você gosta de Direito, então vai mexer com julgamentos, se gosta de Informática, vai para a área etc. Conheci fiscais arquitetos que só ficavam fazendo plantas das novas instalações dos prédios da fiscalização, outros que gostavam da área de educação e só mexiam com cursos e palestras etc. Enfim, você pode fazer de quase tudo com o tempo. A área de atuação da fiscalização é imensa. E com o passar dos anos você vai sendo mais bem aproveitado naquilo que faz melhor e gosta mais. Você vai trabalhar, em tese, muitos anos naquele cargo, então o que são uns 3 anos fazendo aquilo que não gosta muito e depois passar o resto da vida trabalhando com prazer? Pense nisso, com certeza vale o sacrifício. Se você fosse um médico, você acha que chegaria em algum hospital escolhendo os melhores horários? Se fosse professor novato, acha que escolheria as melhores turmas e disciplinas? Ora, isso é normal, quando chegarem os colegas do concurso posterior ao seu você vai querer passar a batata quente para eles e pegar algo melhor. A vida é assim. E nada mais justo, na minha opinião.

Mas os Estados têm uma coisa bem diferente das Prefeituras, que são os postos de fiscalizações nas divisas (não é de fronteira, como o pessoal gosta de dizer, porque fronteira é entre países, divisa entre estados e limite entre municípios). Acho que SP é o único Estado que não tem esse tipo de fiscalização, que acabou há uns 10 anos. Isso se deve pelo funcionamento do ICMS, mas se um dia ele passar a ser cobrado no destino, SP deverá voltar com os postos nas divisas de novo. Geralmente os postos funcionam na escala de 24/72h, ou seja, você trabalha um dia na estrada, em algum trailer ou construção, e folga 3 dias. Há os prós e os contras. O maior pró é que você vai lá, faz seu serviço e depois volta para casa de cabeça livre, sem pensar em trabalho nos próximos 3 dias. E o contra é que, além de trabalhar em um ambiente hostil, com caminhoneiros e policiais à sua volta, sua escala pode cair no Natal, feriado, aniversário etc. Você não fica 24h sem dormir, pois os fiscais fazem um revezamento para cada um dormir algumas horas, mas bagunça um pouco seu relógio biológico. Como tudo na vida, há os prós e os contras, como escrevi acima.

Cuidado para não confundir fiscal externo com fiscal de posto em estrada. São coisas bem diferentes. O externo trabalha visitando as empresas e recolhendo documentação para trabalhar em casa, às vezes até mesmo dentro das empresas, ou na própria repartição tributária, se assim preferir. O fiscal de posto trabalha em algum local na estrada, fiscalizando principalmente os caminhões que passam.

Obviamente, as estruturas nos Estados são bem maiores que em quase todas as Prefeituras, e a arrecadação, lógico, é muito maior. É muito difícil você fazer algum auto de infração de milhões em alguma Prefeitura, o que é bem mais comum nos Estados.


3) Receita Federal do Brasil (RFB)

É de longe a fiscalização com mais estrutura para se trabalhar. Equipamentos e instalações bem melhores, quadro bem maior de técnicos para apoiar o trabalho do fiscal (ATRFBs etc.) e ampla diversidade nas tarefas. Nisso tudo é campeã. Cada fiscal externo "ganha" um notebook de última geração e os internos trabalham com excelentes equipamentos. Em muitos Estados e Prefeituras ainda são usados micros defasados. Fora os sistemas computacionais, que da RFB são infinitamente superiores aos dos demais quase sempre.

Como sempre, há os inconvenientes, e o mais grave destes são as cidades MUITO distantes e sem estrutura que você pode ir trabalhar. Conheço casos de colegas que trabalharam 4 anos em uma cidade em que ele levava 4 dias para ir e mais 4 para voltar para sua cidade natal (RJ). Era a única pessoa de curso superior na cidade, habitada por garimpeiros, sem acesso a TV, celular etc. Imagine a situação, viver QUATRO ANOS em uma cidade assim. Eu teria pirado, sinceramente. Claro que isso vai depender da região para a qual fez prova e de sua colocação, mas existe essa hipótese sim. Obviamente, são casos extremos e que só alguns poucos terão este desprazer. Mas quem está acostumado com o Rio, SP, BH, Curitiba etc., cuidado, você pode viver em alguma cidade bem distante e com poucos recursos por alguns anos. Então pense bem para onde vai se inscrever e se realmente está disposto a viver em algum lugar bem ruim se passar nas últimas colocações.

Você vai ter que fazer os 3 meses do Curso de Formação na sede da região que escolheu para concorrer, e você que arca com deslocamento, hotel, comida etc. Vai ganhar uma bolsa de metade do salário por mês, o que quase sempre dá para se manter.

Mas nas cidades maiores há excelentes instalações e estrutura para trabalhar. Claro que vai ter gente de lá de dentro falando que trabalha em algum lugar com poucas condições, mas acreditem, ainda é MIL vezes melhor que nas outras fiscalizações, quase sempre. Você pode fazer de tudo que imaginar, com o tempo, claro.

Já se imaginou trabalhando em algum aeroporto internacional, vendo artistas passando, em um ambiente com ar condicionado e só gente bonita? Você pode conseguir isso, que era meu sonho, por isso escolhi aduana sem nem pestanejar um segundo sequer na escolha da minha vaga (escolhi trabalhar no Aeroporto de Confins, em BH, onde hoje estão meus amigos Amanda e seu maridão Evandro, mas isso ficou para trás, porque nem cheguei a assumir no AFRFB). Contudo, para tirar o gostinho doce da sua boca, digo que na maioria dos aeroportos você vai ficar alguns anos em outros serviços antes de ir para a famosa "bancada", que é aquilo a que me referi antes, de trabalhar com os passageiros.

A grande maioria dos AFRFBs trabalha fiscalizando as empresas e alguns com pessoas físicas, quase todo mundo com o IR e outros com o IPI. Tem também o pessoal do IOF, ITR e outros tributos menores.

No meu CF um instrutor disse que hoje 80% ou mais dos AFRFBs trabalham internamente, com tendência a crescer cada vez mais. É o contrário dos Estados, onde quase todos são externos. Confesso que esse foi um dos grandes motivos para eu fazer a troca do AFRFB pelo ICMS-SP, porque nasci para ser externo, não agüento trabalhar dentro de uma sala. Quando alguém estuda para ser fiscal, e eu tive esse sonho em 1992 (caramba, faz 15 anos, estou velho mesmo), a gente se imagina revistando arquivos, confrontando notas fiscais com os livros fiscais, descobrindo esquemas de sonegação, emitindo autos de altos valores para ajudar a Administração a investir mais recursos no social etc. Acho que ninguém pensa em ficar lendo processos e dando pareceres, ou atendendo contribuintes enfurecidos atrás de um balcão. Nada contra quem faz isso e é o que ainda farei com muita honra por um bom tempo, porque sei que são necessárias e imprescindíveis para o Fisco todas as outras tarefas, é só uma questão do meu perfil mesmo. Aqui no ICMS-SP a grande maioria é externa, e ainda chego lá. Até que está sendo legal a experiência de trabalhar interno, que é muito diferente de ser externo como fui por 11 anos em BH, e tem suas vantagens. Mas não virei a casaca, continuo sendo fã de carteirinha a favor dos externos.

Enfim, estude muito e passe, com o tempo tudo se ajeita.

Tem também muitos fiscais que trabalham nas fronteiras (aqui é "fronteira" mesmo). Pode ser em Foz do Iguaçu, Ponta Porã, Corumbá etc. Geralmente atuam reprimindo o contrabando e o descaminho em conjunto com a Polícia Federal. Vocês cansam de vê-los na TV quando mostram a fronteira com o Paraguai.

 

Como disse, é o cargo em que mais você pode variar de atividade. Tem fiscais que pilotam helicópteros, todo dia voando e indo dormir na Região dos Lagos, no Rio. Que vida chata, né? Trabalhar pilotando helicóptero e ir dormir em Cabo Frio ou alguma cidade próxima. Geralmente são ex-pilotos da FAB.

É também o cargo em que você mais está sujeito a treinamentos e viagens. Dependendo da sua atividade, você passa vários dias viajando pelo Brasil, ou até mesmo para o exterior, mas neste último caso é bem mais restrito. Mas há esta hipótese de viajar para o exterior, que é quase nula nos outros cargos de fiscal. E antes que me perguntem, o valor das diárias é bem baixo, muitas vezes você paga do seu bolso mais do que ganha com as diárias. Existem cargos em que você ganha a maior grana com viagens, mas não é o caso da RF. Contudo, eu adoraria trabalhar viajando de vez em quando, mesmo gastando um pouco, faz bem sair da rotina.

 

Hoje o cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil (AFRFB) abrange os antigos Auditores Fiscais da Receita Federal (AFRF) e Auditores Fiscais da Previdência Social (AFPS), formando a Receita Federal do Brasil, mais conhecida como Super-Receita. Uma das grandes diferenças é que no INSS a maioria era externo. Mas há outras diferenças diversas, tenho colegas que dizem que foi como juntar árabes e judeus. Sem ter aqui um sentido de guerra entre eles, e sim de diferenças culturais.

 

Os concursos de AFPS eram feitos quase sempre pela Cespe/UNB (acho que só uma vez foi pela ESAF), mas com o fim deste cargo, não esperemos mais concursos específicos para ele, e sim para AFRFB, elaborados pela ESAF


4) Corrupção, atentados etc.

Muita gente também me pergunta sobre corrupção, atentados e pressão dos fiscais desonestos em cima dos honestos, que são essas notícias horrorosas que aparecem no Jornal Nacional.
Falando primeiro de corrupção, começo dizendo que ela existe em quase todos os Fiscos, é o óbvio ululante. Há exceções, como onde trabalhei em BH, que era um exemplo de honestidade. Mas raramente ouvi algum caso de alguém que tenha sido pressionado por parte dos colegas para entrar no esquema. Pode haver algum convite, mas uma imensa pressão não. As coisas acontecem e você nem fica sabendo, porque os colegas mal intencionados fazem questão de esconder tudo de você, claro. Você vai trabalhar anos da sua vida no local sem ser importunado com nada disso. Podem algum dia até fazerem alguma sondagem em você querendo saber de que lado está sua consciência, mas pela sua resposta (e muitas vezes você nem vai ter percebido que seu colega tinha alguma má intenção por trás da pergunta), caem fora e nem chegam a convidá-lo para passar para o "lado negro da força". Em suma, não se preocupe com isso, porque se você quiser ser honesto vai trabalhar assim a sua vida toda, sem stress. Ainda bem que as fiscalizações estão cada vez mais honestas, acreditem nisso, e podemos trabalhar em paz.
Atentados contra os fiscais, como o que ficou famoso com os Fiscais do Trabalho em Unaí, são raros, raríssimos mesmo, tanto é que viram matéria de TV na mesma hora por dias e dias. Já ouvi muitas histórias, mas como disse, são casos muito raros.

Pessoal, estudem. É como sempre digo, compensa ser fiscal, e MUITO. Nunca tive qualquer problema com corrupção ou algum contribuinte louco em todos esses anos como fiscal, e olhem que fui externo 11 anos trabalhando honestamente, o que não é mérito algum, é só nossa obrigação, como espero que vocês sejam quando chegarem no lado de cá. A coisa mudou muito, cada vez mais há mais fiscais trabalhando honestamente e com mais empenho. Não acreditem muito nessas histórias de que fiscal trabalha pouco, isso está cada vez mudando mais. Hoje em dia a grande maioria trabalha as 8h por dia e honestamente sim. Mas somos bem pagos para isso, não podemos reclamar. Ou se estivéssemos na iniciativa privada trabalharíamos menos e ganharíamos mais, com estabilidade? Difícil imaginar, né?

Tem um amigo meu aqui que sempre diz uma coisa muito interessante. Ele diz que trabalha menos do que quando era da iniciativa privada, mas muito mais do que imaginou que trabalharia quando virasse fiscal. E isso é uma grande verdade. Portanto, se pensa em ser fiscal, prepare-se para trabalhar as 8h por dia e de modo correto. Acho que não é pedir muito para quem ganha o que ganhamos. Mas você vai ter os finais de semana livres, os feriados, as férias respeitadas direitinho...enfim, tudo que está na lei.


5) Diferenças entre salários

Não há qualquer relação entre os salários. Nem regra geral de que tal cargo sempre pagou melhor que o outro etc. É tudo uma gangorra, em que hoje alguns estão melhores, amanhã serão outros os afortunados. Mas uma coisa tem de bom: é uma carreira estável, com status e que sempre estará no topo dos maiores salários do Executivo de cada poder, com raríssimas exceções, e por pouco tempo se for o caso. Há fiscalizações municipais que ganham melhor que a RF ou que vários Estados. Mas isso é uma gangorra salarial, como eu escrevi acima. Claro que há aqueles cargos que quase sempre pagaram mal ou bem. Mas não há muitas garantias quanto a isso. Claro que se você puder, pegue os cargos das maiores administrações em sua região, pois há uma maior probabilidade de você se dar bem. Afinal, se um ente arrecada bastante e depende muito da fiscalização para isso, nada mais condizente remunerar bem seus fiscais. Mas não há qualquer garantia quanto a isso, é só uma tendência. Como exemplos, os Estados de SP e AM, a Prefeitura do RJ, Distrito Federal etc. costumam, já há alguns anos, pagar bem. A RF está sempre acima da média, nunca atingindo o maior de todos, mas também nunca indo para abaixo da média dos Estados. Hoje (abril de 2008) está com salário inicial de uns R$ 10.200,00 brutos, que dão uns R$ 7.200,00 líquidos. Dependendo do local onde vai morar, é um ótimo salário, lembrando que é o mesmo valor no país todo. Se você morar em SP ou Bsb, sua grana vai render muito menos do que se morar em Varginha-MG, onde um amigo meu da RF mora, que é uma boa cidade e com custo de vida barato. Ele paga R$ 30,00 na melhor academia da cidade, só para sentirem o drama. Tem amigo meu que paga R$ 500,00 em SP. Claro que não podemos comparar as academias, mas em locais mais baratos, como as tentações são menores, você economiza muito mais. Se você viver com esse salário da RF em algumas cidades você vira o rei da cocada preta, o bom partido da região, aquele que todo mundo quer botar para casar com a filha.


6)  Problemas  mentais

Aqui é mais um alerta aos futuros colegas. Nunca deixem de manter seus cérebros ativos. Muitas vezes seu trabalho vai ser uma receita de bolo, e você vai atrofiar seus neurônios. É um crime para o seu cérebro. Até uns anos atrás, percentualmente os cargos que mais tinham licenças para cuidar de problemas mentais eram os de professores. Em várias administrações hoje em dia os fiscais passaram os professores, percentualmente, nesse triste quesito. Eu tenho uma teoria que explica isso. Tirando alguns casos da pessoa não agüentar a pressão, eu acho que o maior problema é que você coloca um cara teoricamente mais estudioso e inteligente para fazer tarefas em que ele vai utilizar pouco seu cérebro. Imaginem colocar mestres e doutores em física quântica em um cargo em que o cara muitas vezes analisa processos idiotas (dependendo do caso, óbvio) e um igual ao outro, por anos a fio. Uma hora o cérebro vai reclamar, e vêm os sintomas de depressão, esquizofrenia etc. Bem, isso é uma teoria minha e de muita gente, o que importa é que você, por mais burra que seja a tarefa designada para fazer no seu dia a dia, mantenha seu cérebro em atividade. Nunca deixe de ler, escrever, estudar etc. Nem que faça cursos de línguas, uma pós-graduação, seja um autodidata em alguma ciência etc. Mantenha seu corpo e sua mente ativos sempre. A grande maioria dos novos fiscais resolve fazer Direito quando viram fiscal. Dos meus colegas AFRFs do meu CF, dos 24 da minha sala que não eram advogados, 21 resolveram fazer isso. Nem preciso contar quem foi uma dessas 3 exceções, porque só gosta de números, né?

Tem um outro grupo de doidos que já eram meio doidos antes de entrarem no serviço público. Como eles eram extremamente inteligentes, mas nunca passavam em alguma entrevista ou avaliação psicológica para algum emprego, estudaram e passaram para concursos difíceis, nos quais não têm esses obstáculos para entrarem, e ainda por cima adquirirem estabilidade. Perguntem a qualquer fiscal que vocês conhecem sobre a quantidade de doidos que têm no seu cargo. Tive vários colegas assim.

Vou contar o meu caso, para variar. Por uns 7 a 8 anos eu fiquei sem estudar nada, só trabalhando com tarefas mais simples, assistindo a filmes em casa ou no cinema e navegando pela internet. Isso de 95 a 2002 mais ou menos, quando era fiscal de ISS em BH. Era formado em Computação na UFRJ, que é um curso bem puxado desde o vestibular, como todos sabem. Tinha feito o ensino médio na Escola de Cadetes do Exército, em Campinas. Portanto, era acostumado a sempre estudar muito. Quando foi em 2002 resolvi voltar a estudar academicamente. Primeiro fiz licenciatura em Matemática, depois especialização em Matemática e Estatística, até que resolvi assinar meu atestado de insanidade mental e entrei para o mestrado em Estatística, tudo em universidades federais. Nos primeiros meses eu fiquei desesperado e triste. Eu me sentia o burro dos burros. Meu cérebro estava completamente atrofiado. Não digo só por não lembrar o que tinha estudado há mais de 10 anos antes, minha memória sempre foi uma meleca mesmo, mas sim porque não conseguia me concentrar direito e meu raciocínio estava muito lento. Eu me sentia um velho no meio daquela meninada muito mais ágil do que eu. Eu nem achava mais que os famosos neurônios Tico e Teco estavam brigando, porque eles já estavam exterminados há tempos. Sempre fui um garoto de raciocínio bem rápido, e de repente percebi que aquilo tinha ido embora, sem que eu nunca tivesse me dado conta disso. Levei uns bons meses para ir recuperando minha velha forma. Mas consegui recuperar bem. Não sou mais o menino ágil de 15 ou 20 anos atrás, meus quase 38 anos (em abril de 2008) não me permitem mais isso, mas hoje estou bem melhor que há 5 anos atrás, isso eu tenho certeza. E tenho a plena convicção de que se tivesse começado a estudar direto para concursos sem ter feito essa ressurreição do meu cérebro antes, nunca teria conseguido passar nos concursos que fiz estudando o tempo que estudei. Iria precisar de muitos meses mais para entrar no ritmo.

Eu senti na pele o emburrecimento que muitas vezes sofremos no serviço público e tomei uma decisão: nunca mais deixarei de estudar. Faça o mesmo depois que passar. É claro que não estou falando de continuar estudando nesse ritmo de doido da vida de concurseiro compromissado, e sim para manter seu cérebro ativo estudando e lendo sobre o que gosta. Será por prazer, e não por desespero e obrigação.

Não vou fazer doutorado, porque infelizmente hoje em dia não teria tempo para isso, mas quero continuar estudando o que gosto. Sei que muita gente vai me chamar de maluco, mas como é bom estudar algum livro de raciocínio lógico, matemática, estatística ou cálculo de vez em quando. Aaaahhhhh que beleza ver aqueles números e letras gregas, e não mais artigos, gráficos de economia e razonetes. Bem, minhas maluquices à parte, nunca deixem de estudar, pensem sobre isso com carinho depois que passarem. Descansem por alguns meses, vocês vão merecer esse descanso, mas depois arrumem algo que lhes dê prazer e estudem sobre o assunto.

E antes que desanimem, é claro que isso tudo se for o caso de você cair em alguma tarefa repetitiva e fácil, o que muitas vezes não terão na vida de fiscal, que apresenta várias coisas bem complexas e dinâmicas pela frente. Nessa vida de fiscal há muitas tarefas interessantes e desafiadoras o esperando.

Bem, acho que quase tudo o que vocês precisam saber da carreira fiscal está aí no texto.

Quer uma sugestão? Escolha um bom cargo, com boa perspectiva de estabilidade e que lhe proporcione morar em algum lugar que você gostaria de viver, e vá atrás. Estude muito e passe. Acumule centenas de HBCs. Se depois que entrar achar que não era aquilo que esperava, ou espere sua remoção, no caso de algum Estado ou a RF, ou então estude e passe para outro cargo, como eu e tantos outros fizemos. Boa parte dos fiscais mudam de cargo depois de um tempo. Vários foram de outras fiscalizações, tribunais, Técnicos da Receita Federal etc. antes de assumirem um cargo definitivo. Depois que você passar um algum concurso, terá mais paz para estudar, mais grana para investir em bons livros e cursos e muito mais confiança, o que é muito importante. Eu costumo dizer que concurso é igual aquelas fileiras de dominós. Só precisa derrubar o primeiro, que depois o resto vai caindo.

Um grande abraço a todos e bons estudos
Alexandre Meirelles
alexmeirelles@gmail.com


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